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Controvérsia na East Side Gallery

Saiu no El Pais:

A principios de 1990, Bodo Sperling fue contactado por un grupo de artistas de la antigua República Democrática Alemana (RDA) para participar en la realización de una obra de arte colectiva que cubriría la superficie gris del muro que dividió la ciudad de Berlín, y el mundo entero, en dos bloques. Eligió los colores azul, amarillo, negro y blanco. Pintó líneas geométricas y las estrellas de la Unión Europea, y tituló su obra La transformación del pentagrama en una estrella de paz en una Europa sin muros. Él y otros 117 artistas de todo el mundo realizaron juntos la que se conoce como la “mayor galería de arte al aire libre del mundo”, la East Side Gallery. Hoy, sin embargo, en lugar de los colores de Sperling se ha quedado un espacio vacío pintado de blanco.

Notícia completa AQUI.

Dica do Manuel Zayas. ;)

Trabi customizado

Andando em Berlim no ano passado, vi isso e não pude deixar de fotografar. Eu não sou fã de carros, mas acho os Trabants bem charmosinhos.

O que me chamou atenção, além de ser um Trabi, foi a customização feita nele. Parece um antigo modelo militar usado na época da República Democrática Alemã, mas que agora foi feito de conversível. E está lá o saudosismo explícito de quem mandou repaginar o carrinho: o brasão da RDA.

Aliás, vez por outra ainda vejo alguma referência ao antigo país. Em carros, chaveiros, camisetas. E não somente em lojas de souvenirs.

Enquanto uns não toleram a veneração a qualquer símbolo do antigo regime, outros fazem questão de demonstrar seu saudosismo onde quer que seja. Foi o caso do dono desse Trabi.

Não tem ideia do que seja um Trabant? Então leia esse POST.

Clique nas fotos e você poderá visualizá-las melhor no meu flickr.

O orgulho de ser Trabant.

O brasão da RDA.

Trabi customizado.

Os pais da reunificação

Ontem foi inaugurado em Berlim, um monumento em homenagem aos chamados “pais da reunificação alemã”.

Bush (pai), Kohl e Gorbatschow: pais da reunificação. Foto: Ralf Lutter

O então presidente da União Soviética Michail Gorbatschow, o ex-chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Kohl e o ex-presidente dos Estados Unidos George Bush (pai), ganharam bustos de bronze no bairro berlinense de Kreuzberg.

Há dois dias, vi um documentário que explicou os meandros políticos que ocorreram entre a queda do muro e a reunificação. Foram muitos encontros, conversas, acordos. Fiquei admirada com a coragem de Gorbatschow em arriscar a sua manutenção no poder para apoiar a união das Alemanhas divididas. O documentário mostrou que houve um risco iminente de golpe militar na então União Soviética. Mas mesmo assim, Gorbatschow foi em frente.

Descobri também que o presidente da França à época, François Miterrand, não apoiou logo de cara essa estória de reunificação. Helmut Kohl teve jogo de cintura para convencê-lo a apoiar a causa mais tarde.

Nesse tempo que levo vivendo no antigo território da RDA, posso afirmar que a maioria das pessoas com quem conversei e troquei ideias sobre o antigo país, fala que hoje as coisas são melhores. Mas alguns fazem  parênteses falando dos problemas causados pela união dos países, como por exemplo, o desaparecimento de algumas indústrias e o consequente desemprego de muita gente da região.

Nesses 20 anos de Alemanha unida, percebo que ainda há uma divisão invisível entre os “dois países”, seja por mentalidade ou por diferenças sócio-econômicas. O mais bacana seria sanar os eventuais problemas, mantendo as particularidades de cada região. Afinal, se pode aprender bastante das diferenças.

Berlin 456189

Eu gosto desse vídeo e quero compartilhar com vocês. Às vezes a música é incômoda – assim como as imagens. Tente imaginar as circunstâncias nesses diferentes anos. Essa colagem nos transporta para lá.

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I like this video and I want to share it with you. The music is sometimes annoying – as the images themselves. Try to imagine the circumstances in those different years. This collage brings us there.

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Memória em Fotos – III

Note: If you click in the photos, you’ll go to the direct link of them.

Se você passou por aqui antes, já deve ter visto umas fotos incríveis tiradas na RDA. Vamos ver mais algumas imagens bacanas de JM van Elk? Dica: se clicar na foto, chegará ao link direto com as explicações do próprio fotógrafo.

East Berlin some days before the fall of the wall.

Karl Max Alle em Berlim Oriental alguns dias antes da queda do muro.

Aglomeração na Alexanderplatz, Berlim Oriental, no maior protesto realizado na RDA alguns dias antes da queda do muro.

Potsdamerplatz e o muro em 1989.

Em 1990, um agradecimento camarada a Gorbachev.

Bandeiras da RDA sendo vendidas como meros souvenirs em 1990.

Trabant no bairro de Kreuzberg (Berlim) depois da queda do muro.

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Se você chegou no Memórias do Muro agora, aqui estão o primeiro e o segundo posts com outras imagens bem interessantes. E para quem não sabe a importância de um Trabant na RDA, recomendo a leitura desse post.

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Artistas e o registro de uma época

Registros de uma época em "Behauptung des Raums". Foto: divulgação

Há uma semana, assisti a um documentário interessante que me mostrou uma face da contracultura na RDA, ainda desconhecida pra mim. Behauptung des Raums do diretor Claus Löser (co-direção de Jakobine Motz), mostra jovens artistas que queriam produzir sua arte de maneira independente dentro da ditadura socialista da Alemanha Oriental.

Até aí, nada de muito novo. Porém, o forte do filme é a compilação de um rico material de arquivo que nos transporta à atmosfera de inquietude artística em plena RDA. Com a potência trazida por registros subjetivos, o filme é antes de tudo, um documento de uma época.

O próprio título já mostra em que caminho vai o filme. A tradução seria algo como “afirmação do espaço”. A mensagem central fica clara até mesmo para alguém como eu ou você, estrangeiros se aventurando pela História alheia: artistas criam espaços (físicos e ideológicos) para expor sua arte. Cavam um lugar que lhes é de direito. Apesar das dificuldades. E até usam as proibições  do Estado como mola propulsora para suas criações.

Costurado com depoimentos atuais e imagens em super-8 ou VHS coletadas na RDA, o documentário nos mostra como vários artistas de Berlim Oriental, Leipzig e Karlmaxstadt (hoje Chemnitz) se reuniram, produziram sua arte e se posicionaram contra o establishment. Havia sempre alguém registrando as exposições, performances e discursos, sem saber que isso no futuro renderia uma reflexão sobre aquele país que já não mais existe.

Artistas da RDA a pleno vapor. Foto: divulgação

Logo de cara, me chamou a atenção que os personagens fossem praticamente só homens. Tá, teve uma mulher que relatou a sua experiência, mas convenhamos que 10 minutos em um filme que dura 80, não é lá uma grande representação.

Por sorte, fui a uma sessão com a presença dos realizadores e após o filme, houve um pequeno debate. O diretor justificou a pouca presença feminina dizendo que muitas artistas da época não documentaram suas ações em foto ou vídeo. Além do que, ele já tinha contato com os artistas que aparecem no filme e colocar mulheres que não tivessem a ver com esse movimento só para ter mais representação feminina, não lhe pareceu uma boa ideia.

Saí do debate bastante irritada porque a moça que deveria ser mediadora entre diretores e público, quis ser provocadora (nada contra) e começou a questionar de maneira bem arrogante, que tipo de informação concreta o filme deixaria para as futuras gerações que não vivenciaram a RDA. Resposta do diretor: o objetivo do filme não é ser didático. Se alguém precisar de informações históricas, vai encontrar vasto material específico sobre essa época em diversas outras fontes.

Concordo com isso. A maneira espontânea com que os materias de arquivo foram gravados não é informativa, mas provoca emoções em quem assiste e transporta a plateia intuitivamente para aquela época. Independente se o espectador é PhD em História da Alemanha Oriental ou se não sabe nada sobre o assunto. Filmes também são feitos para suscitar emoções e não apenas para informar.

Apesar de o tema ser interessante, confesso que ao invés de 80, o documentário poderia ter apenas uns 60 minutos. Teria dado o recado sem cansar. Mas isso não chega a comprometer a minha avaliação final. Gostei muito de ter viajado no tempo com a  História sendo contada e documentada por quem a viveu.

Infelizmente ainda não há um trailer online.

Stasi em derrocada

Multidão pede o fim da Stasi em Berlim, 15 de Janeiro de 1990. Fonte: Bundesarchiv

Há exatos 20 anos, centenas de cidadãos de Berlim Oriental se reuniram em protesto diante do prédio central da STASI (a polícia secreta da RDA). Todos faziam pressão para dar fim ao serviço de espionagem e pediam a abertura dos arquivos secretos.

Aglomerados cada vez em maior número, os cidadãos furiosos acabaram invadindo o prédio horas depois, destruindo equipamentos e atirando documentos pelas janelas.

Contextualizando: há 20 anos o muro tinha caído, mas a Alemanha ainda estava dividida.

Memória em Fotos – II

Note: If you click in the photos you’ll go to the direct link of them.

Como havia falado no post anterior, aqui vão mais algumas fotos do flickr de JM van Elk. Se clicar nas fotos, você vai direto pro link específico com as explicações do próprio autor (em inglês).

Portão de Brandemburgo visto do ponto de vista de quem estava na Berlim Oriental. 1988

Portão de Brandemburgo visto do ponto de vista de quem estava na Berlim Ocidental. 1988

Posto de controle de fronteira Checkpoint Charlie em 1989.

Os destroços do Checkpoint Charlie após a queda do muro em 1990.

Post relacionados: aqui e aqui.

Memória em fotos

Eu adoro imagens. Acho que elas podem traduzir situações muito melhor do que palavras bonitas e bem encadeadas (tese já difundida naquele dito popular “uma imagem vale mais que mil palavras”).

Fazendo minhas pesquisas corriqueiras, me deparo com uma preciosidade, uma relíquia de verdade. Assim, facilmente ao meu alcance no flickr. Imediatamente comentei e parabenizei o autor das imagens e pedi para usar algumas delas aqui.

Felizmente ele me autorizou e nos próximos dias os leitores do Memórias do Muro vão poder ver e sentir um pouco da Berlim dividida, do país comunista acinzentado e dos momentos corriqueiros tão bem guardados em belas imagens!

As fotos são de Berlim Ocidental e Berlim Oriental no período entre 1988 e 1990. Clicando nelas, você poderá ir direto ao link correspondente no flickr de JM van Elk.

Carimbos da RDA no passaporte / GDR Stamps in the passport.

Carimbos da RDA no passaporte. / GDR Stamps in the passport.

Criança passando pelo muro da Berlim Oriental para a Berlim Ocidental em 1990. / A kid stepping from East to West Berlin in 1990.

Praça Lênin, Berlim Oriental, 1989. / Leninplatz, East Berlin.

O Leste encontra o Oeste. Berlim Oriental, 1988. East meets West. East Berlin.

Post relacionados: aqui e aqui.

Potsdamer Platz, 09.Nov.09

Aqui algumas fotos que tirei ontem na festa de 20 anos da queda do muro de Berlim. Como costumo dizer: Todas as imagens são feitas com uma câmera digital, caseira mesmo. Para mim o que vale é o registro de um momento ou de um lugar. Não busco a estética perfeita. Apenas abro os olhos para o que me circunda.

Nesse post faço um relato pessoal sobre a festa.

Chuva.

2

O que pensará?

3

Gigantes.

4

A festa transmitida em telões.

5

Pou, pou!

6

Orgia de fogos no ceu.

7

Indo para casa.

8

Multidão atééé longe.

9

Havia uma camisa no meio do caminho, no meio do caminho...

10

Voltando ao normal.

11

Fim de festa à espera do metrô.

Volksbühne

Foto do dia.
Todas as imagens são feitas com uma câmera digital, caseira mesmo. Para mim o que vale é o registro de um momento ou de um lugar. Não busco a estética perfeita. Apenas abro os olhos para o que me circunda.
theater

Volksbühne. Berlim/Berlin, 2007.

Links informativos

Há alguns dias fiz um post recomendando especiais sobre o muro de Berlim e sua queda AQUI.

Hoje, listo mais alguns sites que abordam o tema e que podem ser interessante instrumento de pesquisa e informação.

AQUI um especial da RBB, canal de TV de Berlim, contando a trajetória dos acontecimentos mais importantes em ordem cronológica. Está em alemão e inglês.

Há exatos 20 anos, em 4 de novembro de 1989, ocorreu  em Berlim Oriental o maior protesto público da História da RDA. Veja mais aqui.

The Russia Journal oferece a possibilidade de buscar vários tipos de notícias em seus arquivos. Quando procurei sobre a queda do muro, vieram depoimentos de russos sobre esse marco histórico. Interessante e o link está AQUI.

Para quem entende alemão ou mesmo sem entender quer arriscar ver um link do canal de TV ZDF, deve entrar nessa viagem interativa  AQUI. Ainda bebendo na mesma fonte, uma série de fotos do cotidiano da RDA AQUI e arquivos em áudio abordando a trajetória do muro desde sua construção até a queda AQUI.

A voz do artista

Esse mundo virtual nos proporciona surpresas agradáveis. Ao publicar um post falando sobre a East Side Gallery há alguns dias, eis que surge um comentário enorme e pessoal sobre o tema.

Adivinha quem era? Um artista que pintou na galeria ainda em 1990, um dos primeiros a deixar sua arte por lá. Não o conheço, mas certamente ele achou o meu blog nas ondas cibernéticas

Considero suas palavras uma entrevista absolutamente pessoal que veio até mim sem eu pedir. Merecia, portanto, ser mais que um comentário.

Editei alguns fragmentos, mas boa parte do que ele escreveu está aqui. O depoimento integral pode ser lido nos comentários do post East Side Gallery. Com a palavra, o artista português Kim Prisu:

Metamorfose das existências ligadas num móbil indefinido

1 mur de berlin 2009 kim prisu

Fragmento da obra de Kim Prisu na East Side Gallery. Foto: arquivo pessoal do artista

O Muro de Berlim ( “Berliner Mauer” em alemão) foi erigido um ano antes de eu nascer em 1961. Só sei que quando tinha para ai os meus 11 anos dizia “ que era mais fácil de ir a lua de que passar do outro lado do Muro de Berlim.

E não é que em 1990, no serão de 23 de Junho o meu amigo e artista plástico Hervé Morlay dito VR, me bateu a porta do meu pequeno apartamento do “35\37 rue de Torcy em Paris 75018”, e me perguntou se queria ir a Berlim, que havia um projecto de pintar no muro na parte de Berlim Oriental (RDA).

O (Hervé Morlay) VR ia alugar uma carinha de caixa fechada para 15 dias. 12 horas depois na manhã seguinte estávamos a caminho de Berlim. Passamos uma primeira vez a fronteira França Alemanha. Eu até tinha o meu passaporte caducado mas só me apercebi depois. (…)

Atravessamos a Alemanha ocidental e tivemos de novo de passar outra fronteira, aí no silêncio, mas tudo correu bem. É dizer que a situação já estava no caminho da abertura, e entramos numa auto-estrada toda cercada por uma grande rede com arame farpado, miradouros com guardas armados. Dizíamos um para o outro “e se a um deles lhe passasse pela cabeça de nos dar um tiro?”.

Antes de entrar em Berlim mais uma fronteira. Era para mim muito estranho passar duas fronteiras no mesmo país. Fomos a ter a casa de um artista Alemão “A. Paulun” num Bairro perto do muro no nº 2 da rua “Wrangel” em frente a igreja “St. Thomas” … Foi também aí perto de “St. Thomas” que pela primeira vez atravessei o Muro.

No sitio, ao que me contaram, tinha morrido o maior número de pessoas. Os atiradores estavam colocados às janelas dos prédios do lado oriental. Hoje encontra-se lá um jardim.

Na 1ª semana existia nessa grande brecha, (…) casotas de madeira com guardas que faziam ofício de fronteira. Precisava-se ainda de mostrar o Passaporte, mas já com muita descontracção. Na segunda semana estavam no chão, isso era nos primeiros dias de Julho 1990. Sentia-se a liberdade, não sei como explicar.

Em França um dia, um Português que teve presente em Lisboa (e que tinha na sua pequena oficina de tipografia lá em Paris uma foto com ele e os soldados da revolução em cima de um caro de combate no 25 de Abril 1974) disse-me que naqueles meses em Lisboa sentia-se a liberdade. Era como se a pudéssemos tocar com os dedos da mão.

Senti o mesmo, por isso lembrei-me dessas palavras e chamei o 1º painel “O povo unido nunca será vencido” em recordação. Eu, o meu amigo Hervé Morlay (VR) e o A. Paulum obtemos um encontro com a pessoa que se ocupava do projecto “East Side Gallery”.

Já na segunda semana, entre tanto andamos por lá a pintar entre os dois muros e os miradouros. Só nos ficava 4 dias antes de voltar para paris para entregar a carinha. Foi assim que tive de fazer a 1ª pintura (de 1990) em 3 dias, com muita energia.

A 1ª vez que tivemos em frente desse muro do lado oriental na avenida “Muhlenstrasse” , fomos ver se havia qualquer graffiti. Nenhum. Aquela parede chamava a cor para esquecer que nesse tronco tinham tirado a vida a 9 pessoas… Ainda há muito para contar sobre essa 1ª vez que fui a Berlim mas isso dava provavelmente um filme.

Desta vez, em fim de 2008, fui pela 1ª vez contactado para refazer a minha pintura. Fiz um contrato com eles, como todos os outros pintores que vão refazer a cópia da pintura deles. Os mesmos que pintaram sobre esses 1300m. São 118 artistas para 105 pinturas, 21 países representados, convertendo o lado Este (oriental) do Muro na maior galeria do mundo ao ar livre.

O beijo entre o líder soviético e o seu correligionário alemão oriental é a peça mais célebre, e a que o artista Dimitrij Vrubel pede 15mil €. Mas por agora eles não querem lhe dar essa soma. Dizem que é para todos igual. (…) ele executou-a, pedindo desculpa a cidade de Berlim e oferecendo o cachet a uma instituição caritativa.

(…) Comecei a pintar na terça-feira 26 de Maio, num dia de trovoada, e foi como se tivesse recebido dela uma energia positiva que me meteu fora de mim. Mas antes mesmo de ir o entusiasmo era já enorme.

(…) Há naquele bairro do outro lado do rio nas costas da “East-Side Gallery” muitos ateliês de artistas, pelos quais lutam porque os políticos e os empreiteiros querem se apoderar para fazer um bairro mais snob e para turistas. É que a “East-Side Gallery” encontra-se mesmo no centro de Berlim. (…)

Estive em frente, de novo no mesmo lugar exacto. A 1ª vez não sabia o que havia por detrás, o escadote não chegava para eu ver do outro lado, desta vez existia um pedaço que foi desviado para o lado, o terreno foi comprado pela companhia O2, que construiu em frente um óvni, (é a primeira impressão que tive quando vi aquela arquitectura), um pavilhão para espectáculo e eventos desportivos. (…)

O muro já não me impressionava como da 1ª vez. Já não tinha para mim o mesmo imaginário… Mas comecei como se tivesse de fazer a cópia do de 1990. Mas não me sentia bem. Comecei a pintar deixando a emoção do momento sair, interrompido pelos turistas e pelas entrevistas de jornalistas.

Mas a um momento esqueço tudo o que me rodeia, fico só em frente do muro, e começo a pintar sem me preocupar. Um fundo abstracto, cheio de escritos em varias línguas, que cada dia pintava com mais energia, alegria. Quando comecei a desenhar, as primeiras cabeças vinham mais suaves.

A minha visão desse povo tinha mudado, é que os filme e a História recente do século 20, e a escola na França, nos criaram um imaginário no qual a Alemanha era um inimigo de 2 guerras mundais (…).

Mas desta vez a ideia desse povo tinha mudado em mim. Das duas vezes que lá vivi, 33 dias em tudo, me levaram a uma outra visão desse povo e dos outros que misturados coabitam com eles. Nunca mesmo nunca, das 2 vez senti agressividade. Andei sempre por todo lado e por vezes houve sítios que se fosse em Lisboa ou Paris passava ao lado.

(…) Quando chegou Jörg Weber (…) e outros responsáveis da “East Side Gallery”, comecei-lhe a falar de uma filosofia e de um estado de espírito que tinha em Portugal com o grupo dos Inteiros, o “Impensamental”. E que já estava a “Impensamentar” esta nova pintura a partir da memória da sensação e do desenho de 1990, em uma emoção e sensibilidade do ritmo do vivido de hoje. Era como uma metamorfose do pensamento interior que se mentalizava numa nova obra.

Gostaram da explicação, entenderam como era que eu trabalhava, ele estava a gostar da energia da minha nova representação, e disse-me que por ele podia continuar. Mas estavam com medo, é que havia também a aprovação da responsável da câmara, e que corria o risco de não ser pago, mas eu respondi que prendia esse risco.

A partir de aí foram 9 a 12 horas diárias a pintar, e ainda a sair à noite ver eventos culturais. Ao fim ele me disseram que iam defender a minha obra, e que era obra e atitude de grande artista. Dirk Szuszies num jantar em casa de ele, disse que eu tinha tido uma atitude muito revolucionária, anarquista. Eu retruquei “não, só uma atitude de Inteiro”. Dei-lhe o nome a está nova obra “Metamorfose das existências ligadas num móbil indefinido.

Vim de lá muito feliz. A inauguração vai começar a 6\7 de Novembro até dia 9 de Novembro, no qual faz 20 anos da queda do muro. E como disse Jörg Weber: “não nos compreendemos bem, mas gracejamos muito com a tua pessoa e partilhamos uma grande e bela energia”.

Sentes que foi um povo que muito sofreu, mas encaram a vida de uma maneira muito humilde, e com muita energia objectiva. (…) E para concluir, o meu painel foi aceito.

Kim Prisu. Berlim, Maio-Junho 2009

15h26

Foto do dia.
Todas as imagens são feitas com uma câmera digital, caseira mesmo. Para mim o que vale é o registro de um momento ou de um lugar. Não busco a estética perfeita. Apenas abro os olhos para o que me circunda.
berlim

Berlim, 2007

East Side Gallery

Atualização de 28/10/2009: veja aqui o depoimento exclusivo do artista português Kim Prisu, um dos primeiros a pintar na East Side Gallery.

Restam poucos pedaços originais do muro de Berlim. O maior e mais conhecido deles é a East Side Gallery, considerada a maior galeria de arte a ceu aberto do mundo.

Logo depois que as fronteiras se abriram, muitos artistas decidiram  colorir o cinza do paredão e fizeram pinturas do lado oriental do muro, localizado às margens do rio Spree.

Com a ação do tempo e até mesmo de vândalos, muitas obras originais se deterioraram. Algumas pinturas estavam pichadas e irreconhecíveis.

Nos últimos meses o paredão passou por uma restauração em virtude das celebrações dos 20 anos da queda do muro de Berlim.  Segundo informações oficiais, atualmente a galeria conta com cerca de 106 pinturas feitas por artistas do mundo inteiro.

O beijo camarada, comum nos encontros de líderes dos países socialistas. Foto: Régis Bossu/Sygma

O beijo camarada. Ato comum nos encontros de líderes dos países socialistas. Foto: Régis Bossu/Sygma

Uma das imagens mais famosas da galeria é (ou era?) a reprodução de um beijo entre o então presidente da RDA Erich Honecker e o seu camarada Leonid Brezhnev, líder da União Soviética. Há notícias de que nas restaurações, o ícone da East Side Gallery tenha sido apagado para ser restaurado posteriormente.

Abaixo um vídeo curtinho que mostra a galeria ao ar livre, também chamada de “Memorial Internacional pela Liberdade no muro de Berlim”.