Multidão pede o fim da Stasi em Berlim, 15 de Janeiro de 1990. Fonte: Bundesarchiv
Há exatos 20 anos, centenas de cidadãos de Berlim Oriental se reuniram em protesto diante do prédio central da STASI (a polícia secreta da RDA). Todos faziam pressão para dar fim ao serviço de espionagem e pediam a abertura dos arquivos secretos.
Aglomerados cada vez em maior número, os cidadãos furiosos acabaram invadindo o prédio horas depois, destruindo equipamentos e atirando documentos pelas janelas.
Contextualizando: há 20 anos o muro tinha caído, mas a Alemanha ainda estava dividida.
Quando se fala do muro, é inevitável não pensar nas muitas famílias que foram separadas logo durante sua construção. Leia aqui o post que escrevi explicando um pouco disso. Alguém que morava na parte leste de Berlim acabou ficando incomunicável com quem estava no lado ocidental da cidade.
Uma cena do filme com a atriz Veronica Ferres. Foto: MDR/UFA/Stefan Falke
Mas há casos de famílias que foram apartadas de outra maneira. É a estória retratada no filme Die Frau vom Checkpoint Charlie ou “A mulher do Checkpoint Charlie”, produzido pelo Das Erste, canal de TV alemão. O longa-metragem, dividido em duas partes, é baseado em um fato real e narra as desventuras de uma mulher da RDA que tenta escapar com as duas filhas pequenas para o Oeste alemão através das fronteiras e sofre consequências desastrosas por isso.
Jutta Gallus acaba tendo seus planos abortados pela polícia secreta da RDA – a STASI – e é levada para a prisão, onde permanece por quase dois anos sem contato com as filhas.
O Oeste alemão paga uma fiança por sua liberdade. Enfim, o sonho de ir morar do outro lado se realizaria. Mas o regime da RDA foi cruel e lhe deu a liberdade em troca de manter a guarda de suas filhas em território socialista.
Jutta Gallus em protesto no Checkpoint Charlie. Foto: MDR/Jutta Gallus
Jutta vai para a Alemanha Ocidental e começa uma saga corajosa que torna sua estória conhecida: todos os dias ela passa a protestar em um posto de controle de fronteira, entre a Berlim Oriental e a Ocidental, o Checkpoint Charlie. As ações da mãe desconsolada não páram por aí. Ela se acorrentou em uma conferência internacional sobre direitos humanos em Helsinki e em Roma, chegou a pedir o apoio do então Papa João Paulo II.
Reencontro após seis anos separadas. Foto: MDR/Jutta Gallus
Após seis anos de separação, mãe e filhas puderam finalmente se reencontrar no dia 26 de agosto de 1988, cerca de um ano antes de o regime na Alemanha Oriental ser derrubado.
Quando vi o filme de ficção e o documentário com as personagens reais dessa estória, me emocionei bastante. Não há como não achar isso tudo muito cruel e absurdo. E não posso deixar de me perguntar: que socialismo era esse que calava vozes, separava famílias, abolia liberdades e controlava a todos como marionetes?
Deixo o link para o trailer do filme. Está em alemão e é bem melodramático, mas é só para ter uma ideia da estória. Cliquem AQUI para ver.
Ulrich Mühe como o espião da Stasi - Foto: Sony Pictures
Só fui ver o filme “A Vida dos Outros” (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, no ano passado já morando na Alemanha. Isso muda alguma coisa na minha percepção do longa.
Sem dúvida é um filme forte, envolvente, denso e com várias temáticas interessantes dentro da sua narrativa.
Emblema da STASI, a polícia secreta da RDA. Foto: domínio público
Depois que assisti o longa pela primeira vez, lembro de ter ficado bastante emocionada e de ter pensado nas milhares de vidas que tinham sido espionadas, modificadas, julgadas e cerceadas pela temida polícia secreta da Alemanha Oriental, a STASI, abreviação de Ministério para a Segurança do Estado, em alemão Ministerium für Staatssicherheit. Escreverei um post sobre a STASI em breve.
As estórias de um escritor que passa a ser observado sem saber, de uma atriz que se vê coagida a ir pra cama com um poderoso chefão do Governo para não ter sua carreira prejudicada, de um outro escritor que comete suicídio por não aceitar que sua arte seja sufocada pelo regime, são sub-narrativas que dão ao filme bastante força e veracidade.
Já o oficial, interpretado brilhantemente pelo ator Ulrich Mühe, é um caso controverso no meu entendimento. Logo no começo do filme, vemos que se trata de alguém bastante familiarizado com as táticas de espionagem e pressão utilizadas pela STASI. Percebe-se que ele quer seguir na carreira e, para isso, cumpre bem o seu papel dentro dessa hierarquia. A certa altura da estória, recebe a missão de espionar um artista ‘suspeito’ e o faz com bastante afinco.
Cena de "A vida dos outros". Foto: Sony Pictures
Passado um certo tempo, o antes frio e duro oficial da STASI, se envolve emocionalmente com o ‘objeto’ de sua espionagem e acaba protegendo o artista ao invés de denunciá-lo, fato que lhe rende um belo declínio na carreira: de funcionário do alto-escalão da Polícia Secreta da Alemanha Oriental, passa “apenas” a abrir cartas em um dos escritórios da STASI até a mudança de rumos no país, em 1989.
Após haver conversado com alguns alemães vindos do leste, ouvi a mesma pergunta que ecoava na minha cabeça: será que na realidade, um oficial da STASI teria tido compaixão de um artista e teria prejudicado a própria carreira para não delatá-lo? As respostas discutidas apontavam um caminho comum: Isso seria muito pouco provável na RDA.
A meu ver, no filme não fica claro porque o oficial muda sua postura ideológica de uma hora pra outra. Estaria ele, no fundo, descontente com o sistema ao qual servia? Seria ele próprio, um artista frustrado que viu no outro uma possibilidade de livre-criação e por esse motivo, teria estabelecido uma relação de identificação?
Dois personagens: o escritor espionado e a atriz coagida. Foto: Sony Pictures
Na realidade, penso que um oficial da STASI ficaria contentíssimo em ter um caso como esse nas mãos. Levar o artista para a prisão, calar a sua voz e ‘livrar’ o sistema de pessoas com opiniões contrárias, significaria missão cumprida e talvez lhe rendesse uma condecoração, além de mais respeito profissional.
É claro que se trata de uma obra de ficção e como tal, o longa-metragem não tem a obrigação de ser absolutamente fiel à realidade. Tampouco esse detalhe discutível tira o brilho do filme. Mas convenhamos: pelo pouco que sei e ouvi, a real “vida dos outros” na Alemanha Oriental não era tão romântica assim. Ou se era, foi para bem poucos.
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