A vida dos outros – Uma opinião

Ulrich Mühe como o espião da Stasi - Foto: Sony Pictures

Ulrich Mühe como o espião da Stasi - Foto: Sony Pictures

Só fui ver o filme “A Vida dos Outros” (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, no ano passado já morando na Alemanha. Isso muda alguma coisa na minha percepção do longa.

Sem dúvida é um filme forte, envolvente, denso e com várias temáticas interessantes dentro da sua narrativa.

Emblema da STASI, a polícia secreta da RDA. Foto: domínio público

Emblema da STASI, a polícia secreta da RDA. Foto: domínio público

Depois que assisti o longa pela primeira vez, lembro de ter ficado bastante emocionada e de ter pensado nas milhares de vidas que tinham sido espionadas, modificadas, julgadas e cerceadas pela temida polícia secreta da Alemanha Oriental, a STASI, abreviação de Ministério para a Segurança do Estado, em alemão Ministerium für Staatssicherheit. Escreverei um post sobre a STASI em breve.

As estórias de um escritor que passa a ser observado sem saber, de uma atriz que se vê coagida a ir pra cama com um poderoso chefão do Governo para não ter sua carreira prejudicada, de um outro escritor que comete suicídio por não aceitar que sua arte seja sufocada pelo regime, são sub-narrativas que dão ao filme bastante força e veracidade.

Já o oficial, interpretado brilhantemente pelo ator Ulrich Mühe, é um caso controverso no meu entendimento. Logo no começo do filme, vemos que se trata de alguém bastante familiarizado com as táticas de espionagem e pressão utilizadas pela STASI. Percebe-se que ele quer seguir na carreira e, para isso, cumpre bem o seu papel dentro dessa hierarquia. A certa altura da estória, recebe a missão de espionar um artista ‘suspeito’ e o faz com bastante afinco.

Cena de "A vida dos outros". Foto: Sony Pictures

Cena de "A vida dos outros". Foto: Sony Pictures

Passado um certo tempo, o antes frio e duro oficial da STASI, se envolve emocionalmente com o ‘objeto’ de sua espionagem e acaba protegendo o artista ao invés de denunciá-lo, fato que lhe rende um belo declínio na carreira: de funcionário do alto-escalão da Polícia Secreta da Alemanha Oriental, passa “apenas” a abrir cartas em um dos escritórios da STASI até a mudança de rumos no país, em 1989.

Após haver conversado com alguns alemães vindos do leste, ouvi a mesma pergunta que ecoava na minha cabeça: será que na realidade, um oficial da STASI teria tido compaixão de um artista e teria prejudicado a própria carreira para não delatá-lo? As respostas discutidas apontavam um caminho comum: Isso seria muito pouco provável na RDA.

A meu ver, no filme não fica claro porque o oficial muda sua postura ideológica de uma hora pra outra. Estaria ele, no fundo, descontente com o sistema ao qual servia? Seria ele próprio, um artista frustrado que viu no outro uma possibilidade de livre-criação e por esse motivo, teria estabelecido uma relação de identificação?

Dois personagens: o escritor espionado e a atriz coagida. Foto: Sony Pictures

Dois personagens: o escritor espionado e a atriz coagida. Foto: Sony Pictures

Na realidade, penso que um oficial da STASI ficaria contentíssimo em ter um caso como esse nas mãos. Levar o artista para a prisão, calar a sua voz e ‘livrar’ o sistema de pessoas com opiniões contrárias, significaria missão cumprida e talvez lhe rendesse uma condecoração, além de mais respeito profissional.

É claro que se trata de uma obra de ficção e como tal, o longa-metragem não tem a obrigação de ser absolutamente fiel à realidade. Tampouco esse detalhe discutível tira o brilho do filme. Mas convenhamos: pelo pouco que sei e ouvi, a real “vida dos outros” na Alemanha Oriental não era tão romântica assim. Ou se era, foi para bem poucos.

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4 responses to “A vida dos outros – Uma opinião

  1. Engracado Ariane, pra mim era claro que o oficial, um homem solitário e reprimido, tenha se apaixonado pela atriz, tenha passado a viver a história de amor dos dois como se fosse sua, um caso de projecao mesmo. Mas talvez tenha sido o meu coracao romantico que apagou as perguntas mais políticas 🙂 beijos

  2. Mas será que o filme (que é arte e não cópia da realidade) deveria deixar tudo claro? Será que essa ambiguidade (que é da natureza artística) não seria um dos “grandes baratos” do filme? Será que ao acusar o filme de “romântico” você não estaria lançando um olhar duro demais a um trabalho que não se propõe a essa retidão humana e que deseja explorar justamente as possibilidades humanas? Se não estou enganada, foi Terêncio, poeta da Roma Antiga, que afirmava que “tudo que é humano não me é estranho”. Embora parecer inverossímel é perfeitamente humana a ambiguidade do personagem, sua contradição, etc.
    Beijinho, querida, isso é só uma contribuição para o debate.

  3. Oi Ariane!!!!

    Acho que falamos do filme quando vc esteve a última vez aqui em São Paulo. Eu amo este filme, não tanto pela reconstituição, verossímil ou não, histórica. Para mim, o tema é a função social da arte, a capacidade que a arte tem de ajudar o ser humano a transcender, a ir além de suas limitações sociais e históricas, que é o que acontece com o agente. Exposto à arte, ele vai abrindo janelas sensíveis em si mesmo, que ele nem imaginava ter. Quando, no final, ele entra na livraria e compra um livro, para mim é o fechamento do círculo: ele sai do lugar de alguém contra a arte para virar um apreciador de arte – não sei se por amor ou projeção, o que importa é que ele se transforma. Estruturalmente é uma típica jornada do herói, como nos filmes norte-americanos, mas o que diferencia de tudo é que este herói é um agente secreto da STASI, e o seu santo graal é a sensibilidade artística. Beijos!

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