As manifestações de segunda-feira em Leipzig

Muito se fala do Muro de Berlim e da sua queda, que representou simbolicamente a derrocada do sistema socialista na então Alemanha Oriental – e também em todo o bloco da União Soviética.

Mas ninguém chegou no muro e o fez “cair” do nada. Há todo um processo por trás disso que poucas pessoas conhecem. Hoje, uma segunda-feira, vou contar a estória de outras segundas-feiras que levaram a essa mudança.

Manifestação de segunda-feira em Leipzig, 1989. Foto: LTM

Manifestação de segunda-feira em Leipzig, 1989. Foto: LTM

Em uma cidade da Saxônia chamada Leipzig (em português Lípsia) foi onde começou a chamada Revolução Pacífica. A partir do dia 04 de setembro de 1989, os cidadãos passaram a se reunir no centro da cidade, nas proximidades da Igreja  protestante Nicolau, para clamar por mais direitos civis.

Sob vários motes, incluindo “nós somos o povo”, toda segunda-feira as pessoas iam às ruas pedir, entre outras coisas, mais liberdade de expressão, mais liberdade no direito de ir e vir e sobretudo, o fim da dominação do partido SEDSozialistische Einheitspartei Deutschlands – ou Partido Socialista Unitário da Alemanha.

Centenas e centenas de pessoas se aglomeravam às 17h para os protestos. O horário era estratégico: ninguém precisava ‘furar’ no trabalho. Além disso, lojas do centro ainda estavam abertas. Isso significava certa proteção aos que se juntavam aos protestos e diminuía um pouco os riscos de estarem sós na região. Afinal, mais cedo ou mais tarde, a STASI (polícia secreta da RDA) estaria por perto para tentar coibir o avanço dos revoltados, agindo com violência na maioria dos casos.

De segunda a segunda, o número de pessoas aumentava e mais cidades se juntavam ao coro da Revolução Pacífica. O horário da reunião facilitava também que órgãos de imprensa do oeste alemão dessem a notícia ainda no mesmo dia. Porém, todo o material gravado em Leipzig era transportado ilegalmente para o Oeste, já que à época essa cidade da RDA não permitia o trabalho de jornalistas vindos do “outro lado do muro”.

montagsdemo

Protestos em Leipzig, 1989. Foto: AP photo/Arquivo

O ponto alto das chamadas “manifestações  de O ponto alto das chamadas “manifestações  de segunda – Montagsdemonstrationen – em Leipzig, ocorreu no dia 09 de outubro de 1989, quando cerca de 70 mil pessoas, entre elas seis personalidades do lugar, se juntaram ao coro dos insatisfeitos.

Atualmente, a população de Lípsia se orgulha de ter liderado um movimento político de oposição ao regime, que teve eco durante todo o ano de 1989. A Revolução Pacífica ganhou força no outono daquele ano e abriu os olhos da capital Berlim para os problemas da sociedade da RDA.

No dia 09 de novembro de 1989, as fronteiras entre Berlim Ocidental e Oriental, enfim, foram abertas. E os protestos continuaram. Mas isso já é um outro post.

Clique aqui para ir a outro post feito depois relacionado a esse mesmo tema (com fotos). Abaixo, a notícia exibida em um canal de TV do Oeste alemão no dia 04 de outubro de 1989 (em alemão). Momentos tensos até 2’04”.

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6 responses to “As manifestações de segunda-feira em Leipzig

  1. Querida, parabéns pela inicitiva de registrar essa memória por meio de blog. Mesmo sendo jornalistas que temos essa função, sei que nem sempre o fazemos e deixamos de dividir conhecimento e sentimentos com os outros. Siga em frente! Bom outono! Beijos na testa!

  2. Excelente a explicação sobre uma parte muito importante dos bastidores da queda do regime na DDR!
    Acabei há pouco de ver um filme no Eurochannel sobre este assunto que desconhecia, apesar de ter acompanhado o processo pela imprensa e televisão.
    Sou português, residente em Natal, e vem-me à memória a queda do regime salazarista em 1974, a que assisti “in loco”.
    Nessa época, a fúria comunista apoderou-se do movimento revolucionário em Portugal e, por pouco, não ficámos a ser uma Cuba na Europa…
    Serviria de vacina para a Europa Ocidental, como disse na época o secretário de estado norte-americano Henry Kissinger!
    Foi com imensa curiosidade que assisti depois à queda dos regimes ditos socialistas…
    Obrigado pelos esclarecimentos e felicidades na continuação do blog.

  3. Excepcional o seu trabalho. Um documento fascinante. Me pergunto o que vc vai fazer depois com isso, um livro, um documentário? Te sigo no twitter, tb, como vc deve saber.
    Parabéns

    Paulo

    • thewallmemories

      Obrigada pelo comentário tão gentil, Paulo!
      Ainda é muito cedo para saber no que isso vai se transformar. Mas confesso que tenho algumas ideias em processo de amadurecimento.
      Vamos ver o que o futuro nos reserva (enigmática eu, não? Hehe.).
      Um abraço

  4. Rejane Dockhorn

    Estava fazendo um ano de estudos na Alemanha em 1989.
    Foi bem isso, gostei muito do teu texto. Parabéns!

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