Utopias

U.to.pi.a: (gr ou +gr tópos+ia) sf 1. Plano ou sonho irrealizável. 2. Fantasia, quimera. Fonte: Dicionário Michaelis.

Hoje comemoram-se os 20 anos da queda do muro de Berlim e acho muito pertinente uma reflexão sobre as utopias. O que vou escrever a partir de agora é uma opinião bastante pessoal.

Apesar de o socialismo ter colapsado em boa parte do mundo, ainda hoje há muita gente que acredita ser essa a forma mais justa de governo.

Pois bem, não nasci em um país socialista. Mas tive a oportunidade de viver em Cuba por dois anos, de 2002 a 2004. Não fui a passeio e tampouco a trabalho. Estive lá para estudar em uma escola de cinema, movida por um sonho antigo. E também pela utopia que cerca a ilha.  Essa foi uma experiência que marcará a minha vida até meu último suspiro.

Qual não foi a minha surpresa ao ver meu ideal se desfalecer através dos meses. A cada dia, percebia que aquela imagem de justiça e igualdade tão propagada mundo afora, de fato machucava o dia-a-dia do povo cubano.

Em uma simplificação rasteira, socialismo significa fazer todos iguais. Mas em Cuba, esse valor se dá não pela inclusão, mas sim pela proibição, pelo acesso negado, pela censura, pela vigilância permanente.

Lembro que viajando por um dos estados da ilha, me deparo com uma senhora carregando o filho pequeno no colo. Se aproxima de mim e pede: “você poderia me dar um sabonete?”. Para quem está de fora e carrega a bandeira de uma ideologia carcomida, pode ser que querer um sabonete seja um desejo burguês. Ora, faça-me o favor. Entre outras coisas, a higiene básica deveria ser um direito de todos, independente de tendências políticas. Cito esse episódio simbólico para não adentrar na tão complexa problemática da sociedade cubana.

Às vésperas do aniversário de 20 anos da queda do muro de Berlim, a blogueira cubana Yoani Sánchez sofre agressões físicas e morais por expressar sua opinião contrária ao Governo (relato escrito pela própria ou o áudio de uma entrevista que concedeu a uma rádio mexicana – ambos os links em espanhol) . Uma voz dissonante que, sob a ótica dos poderosos chefões do comunismo cubano, deve ser calada a  joelhadas nas costas e ameaças vis. Agora pense bem: é esse mundo que queremos?

Na antiga Alemanha Oriental, quem ousasse ultrapassar o muro, seria sumariamente executado. Aqui uma reportagem que não me deixa mentir e aqui as animações que simulam como era o aparato repressor do paredão. Se era um mundo tão “justo”, por quê muitos arriscaram a vida tentando ir para o outro lado?

Gostaria de deixar claro que minha (recente) discordância do socialismo  não significa automaticamente uma aprovação do capitalismo. A meu ver, a realidade não é tão maniqueísta assim. E confesso que me é bem difícil confiar em ideologias atualmente.

No entanto, continuo acreditando em um mundo mais justo, onde haja respeito pelo ser humano e por suas opiniões. E penso que o momento em que vivemos é de transição. Para algo melhor, espero.

Ditaduras nunca mais. Sejam elas militares ou comunistas.

O “utopismo” consiste na idéia de idealizar não apenas um lugar, mas uma vida, um futuro, ou qualquer outro tipo de coisa, numa visão fantasiosa e normalmente contrária ao mundo real. O utopismo é um modo não só absurdamente otimista, mas também irreal de ver as coisas do jeito que gostaríamos que elas fossem. Fonte: Wikipédia

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2 responses to “Utopias

  1. Felipe Teixeira

    Ariane, concordo com você que os regimes comunistas não eram exatamente a maior experiência de liberdade e que devemos ser contra qualquer tipo de ditadura, mas, como você disse, a realidade (e principalmente a política!) não são tão maniqueístas nem tão simples. É importante sempre pensar as coisas em perspectiva. Um dos motivos pelos quais se construiu o muro e se construiu um aparato repressor tão grande é porque, no contexto da Guerra Fria, os países comunistas estavam constantemente ameaçados pelos Estados Unidos, que tentavam sabotar o regime e fazer propaganda do capitalismo. Berlim Ocidental virou uma vitrine capitalista, justamente para marcar um contraste de fartura material com relação ao comunismo. Outra coisa que é bom lembrar é que os países ditos liberais democráticos também não eram o paraíso da liberdade. É só analisar os relatos da repressão aos movimentos sociais nos Estados Unidos. São bem próximos do que se ouve dos regimes comunistas. Aliás, hoje os Estados Unidos têm a maior população carcerária do mundo e uma taxa de encarceramento muito maior que a China atual e que União Soviética antigamente. O aparato de vigilância, controle e repressão nos EUA também são de dar inveja a qualquer Stalin, é só ver o Muro atual, na fornteira com o México. O interessante é perceber que existia uma séria de pessoas de esquerda no Ocidente e na área comunista que queriam reformar o regime, mas não para o lado capitalista, mas sim para um socialismo mais democrático e aberto. Sugiro uma entrevista do Peter Gowan, um intelectual britânico que morreu este ano: http://www.newleftreview.org/?page=article&view=2803 . Nessa entrevista ele mostra como os regimes na Europa Oriental também não eram tão absolutamente fechados assim, existia um certo espaço para disputas políticas. Talvez em Berlim a coisa fosse pior, justamente por esse caráter de vitrine na disputa entre os dois lados. Bom, é isso. Não postei por causa da promoção, mas porque seu post me interessou. Mas muito legal sua iniciativa! Já repassei para vários amigos meus. Boa sorte por aí. Um Beijo, Felipe Teixeira (Frente 3 de Fevereiro).

    • thewallmemories

      Oi Felipe,
      muito bom você trazer essa reflexão interessante pra cá.
      Sim, devemos analisar as coisas em perspectiva e havia mesmo uma vontade de alguns líderes de antigos regimes comunistas em levar a coisa na direção de um comunismo mais aberto e democrático, caso do ex-presidente da Iuguslávia, Tito. Mas infelizmente, as coisas não foram pra frente.
      Havia uma disputa naquela época entre duas forças políticas: capitalismo e socialismo. Com a desculpa de um querer se defender dos ataques do outro, matou-se, espionou-se, trapaceou-se. Dos dois lados, não há como negar.
      O que não acho justo nisso tudo, é que o povo tenha que pagar por essa guerra de poder, seja ele capitalista ou socialista.
      Esse é o meu verdadeiro problema com o comunismo, ao menos como ele é praticado em Cuba e como foi na RDA.
      Governos que pensem no social, sim. Mas abusar do poder e massacrar o povo, não.
      Obrigada pela contribuição e pelo debate tão rico! Um beijo

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