Nós (não) temos bananas

Bananas eram artigo sazonal na RDA.

Fui comprar comida um dia desses e me peguei pensando: como será que eram os supermercados na RDA? Não acho difícil imaginar, já que vivi em Cuba por dois anos e posso crer que havia algo de similar no sistema de compras rotineiras na Alemanha Oriental.

O que é público e notório: variedade de produtos não costuma ser o forte de sistemas socialistas. Assim, não é raro encontrar pessoas da RDA falando sobre o êxtase que foi entrar em supermercados do Oeste depois da queda do muro. A exuberância de embalagens e a grande oferta de mercadorias deve ter deixado muita gente eufórica e confusa.

Nesses dias, vi na TV uma senhora da Alemanha oriental falando que ao entrar pela primeira vez em Berlim ocidental, ficou encantada e ao mesmo tempo chocada com as muitas cores da cidade e das lojas. Cansada, preferiu voltar para o seu leste acinzentado e monocromático para descansar um pouco os olhos e se acostumar com o admirável mundo novo que se descortinava diante de suas retinas.

Laranjas? Talvez no natal.

Conversando com pessoas aqui, algumas disparam: laranjas no dia-a-dia? Nem pensar. Frutas tropicais eram artigos de luxo que deveriam chegar só em época de Natal – e se viessem em quantidade suficiente para todos. O mesmo acontecia com as bananas. E outros tantos produtos.

Não digo aqui que as pessoas passavam fome ou não podiam comprar roupas e outros artigos de primeira necessidade na RDA. Isso não.  Porém havia uma ordem de como as coisas funcionavam e todos se acostumaram ao fato de alguns produtos só aparecerem de tempos em tempos.

O muro cai, as fronteiras se abrem e minha imaginação corre longe: pela simples curiosidade, muita gente deve ter corrido avidamente para ver e experimentar diversas mercadorias jamais oferecidas antes. Produtos tão normais que atualmente encontramos aos montes nas prateleiras dos supermercados.

Passada a euforia dos primeiros anos de mudança, o que algumas pessoas comentam, sobretudo os mais velhos, é que comprar coisas hoje se tornou uma atividade corriqueira, sem maiores emoções. Antes havia uma certa felicidade em se conseguir algo, talvez pela dificuldade em obter determinados produtos.

Reparem no comercial singelo de um dos grandes supermercados da época, o Konsum, que existe até hoje na região da Saxônia. No final, o locutor anuncia: “O (supermercado) Konsum realiza os seus desejos de natal”. Então tá!

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One response to “Nós (não) temos bananas

  1. Minha sogra me contou que um conhecido dela, ainda na época da RDA, tinha acesso livre para ir ao lado ocidental e trouxe duas bananas para ela. No momento da entrega das bananas, uma colega de trabalho da minha sogra viu e nao disse nada. No dia seguinte, a colega de trabalho nao falou mais com minha sogra, tudo por causa da banana…bom, a minha sogra supos que foi por causa da banana…rrrss.

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