Eu adoro imagens. Acho que elas podem traduzir situações muito melhor do que palavras bonitas e bem encadeadas (tese já difundida naquele dito popular “uma imagem vale mais que mil palavras”).
Fazendo minhas pesquisas corriqueiras, me deparo com uma preciosidade, uma relíquia de verdade. Assim, facilmente ao meu alcance no flickr. Imediatamente comentei e parabenizei o autor das imagens e pedi para usar algumas delas aqui.
Felizmente ele me autorizou e nos próximos dias os leitores do Memórias do Muro vão poder ver e sentir um pouco da Berlim dividida, do país comunista acinzentado e dos momentos corriqueiros tão bem guardados em belas imagens!
As fotos são de Berlim Ocidental e Berlim Oriental no período entre 1988 e 1990. Clicando nelas, você poderá ir direto ao link correspondente no flickr de JM van Elk.
Carimbos da RDA no passaporte. / GDR Stamps in the passport.
Criança passando pelo muro da Berlim Oriental para a Berlim Ocidental em 1990. / A kid stepping from East to West Berlin in 1990.
Praça Lênin, Berlim Oriental, 1989. / Leninplatz, East Berlin.
O Leste encontra o Oeste. Berlim Oriental, 1988. East meets West. East Berlin.
I just found a short video showing the importance of Leipzig in the changes of East Germany in 1989.
It’s a little bit more about the same (who came here before, already has read how the city started the pacific revolution with the so called Montagsdemonstrationen or the Monday Demos). But it is interesting to see how they compared some images from that period with another ones from nowadays.
Fui comprar comida um dia desses e me peguei pensando: como será que eram os supermercados na RDA? Não acho difícil imaginar, já que vivi em Cuba por dois anos e posso crer que havia algo de similar no sistema de compras rotineiras na Alemanha Oriental.
O que é público e notório: variedade de produtos não costuma ser o forte de sistemas socialistas. Assim, não é raro encontrar pessoas da RDA falando sobre o êxtase que foi entrar em supermercados do Oeste depois da queda do muro. A exuberância de embalagens e a grande oferta de mercadorias deve ter deixado muita gente eufórica e confusa.
Nesses dias, vi na TV uma senhora da Alemanha oriental falando que ao entrar pela primeira vez em Berlim ocidental, ficou encantada e ao mesmo tempo chocada com as muitas cores da cidade e das lojas. Cansada, preferiu voltar para o seu leste acinzentado e monocromático para descansar um pouco os olhos e se acostumar com o admirável mundo novo que se descortinava diante de suas retinas.
Laranjas? Talvez no natal.
Conversando com pessoas aqui, algumas disparam: laranjas no dia-a-dia? Nem pensar. Frutas tropicais eram artigos de luxo que deveriam chegar só em época de Natal – e se viessem em quantidade suficiente para todos. O mesmo acontecia com as bananas. E outros tantos produtos.
Não digo aqui que as pessoas passavam fome ou não podiam comprar roupas e outros artigos de primeira necessidade na RDA. Isso não. Porém havia uma ordem de como as coisas funcionavam e todos se acostumaram ao fato de alguns produtos só aparecerem de tempos em tempos.
O muro cai, as fronteiras se abrem e minha imaginação corre longe: pela simples curiosidade, muita gente deve ter corrido avidamente para ver e experimentar diversas mercadorias jamais oferecidas antes. Produtos tão normais que atualmente encontramos aos montes nas prateleiras dos supermercados.
Passada a euforia dos primeiros anos de mudança, o que algumas pessoas comentam, sobretudo os mais velhos, é que comprar coisas hoje se tornou uma atividade corriqueira, sem maiores emoções. Antes havia uma certa felicidade em se conseguir algo, talvez pela dificuldade em obter determinados produtos.
Reparem no comercial singelo de um dos grandes supermercados da época, o Konsum, que existe até hoje na região da Saxônia. No final, o locutor anuncia: “O (supermercado) Konsum realiza os seus desejos de natal”. Então tá!
(tradução livre de trecho da canção do Sandmann na RDA)
Há 50 anos quando soa essa música nos televisores alemães, é chegada a hora de ir domir. Na verdade, o personagem Sandmann já existe desde 1816 quando figurou em um livro do autor alemão E.T.A. Hoffmann. Mas o homenzinho da animação stop motion passou a existir na televisão há exatas 5 décadas. E tudo começou na RDA.
Sandmann no seu aniversário de 25 anos. Fonte: Arquivo Federal Alemão
A tradição diz que as crianças só vão para a cama depois de verem o Sandmann na TV dando boa noite a todos. No final de cada episódio, o bonequinho barbudo traz consigo uma areia fina e a espalha para as crianças. A areinha tem o poder de entregar os pequenos ao mundo dos sonhos.
Daí o nome Sand=areia; Mann=homem.
Em 59 o Sandmann estreou na RDA e apenas 3 anos depois, foi lançada a versão ocidental do bonequinho: o Sandmännchen. Durante 30 anos esses dois “homenzinhos da areia” deram boa noite às crianças da RDA e da RFA, respectivamente.
Com a reunificação das Alemanhas, houve muitos pedidos de que o Sandmann da Alemanha Oriental permanecesse como o oficial. E foi o que aconteceu. Ainda que os episódios sejam atuais, as crianças alemãs continuam a receber o boa noite do mesmo modelo do boneco acompanhado da mesma musiquinha da época da RDA.
Independente de ser do Oeste ou Leste, qualquer alemão que foi criança a partir do início da década de 60 vai sempre lembrar das historinhas e do bonequinho como parte das suas fantasias de infância.
Nesse dia 22 de novembro de 2009, a TV daqui vai ter uma programação especial sobre esse personagem que pertence a Alemanha, mas não deixa de ser parte da herança da RDA. Eu que nunca assisti um episódio do Sandmann antes, hoje vou querer receber a areinha mágica para dormir.
E para vocês, dois vídeos: o primeiro traz o trecho de um episódio da época da RDA e o segundo mostra o personagem como era no oeste alemão. Boa noite!
Desde o dia 10 de novembro, um comercial da gigante de telecomunicações alemã Telekom está circulando em emissoras de televisão daqui. Achei o cenário bastante familiar na primeira vez que vi o spot na TV. Não matei a charada logo de cara, porque tinha perdido o começo da propaganda.
Pesquisei na internet e eureka! O comercial foi gravado na estação central de trens de Leipzig um dia antes do aniversário de 20 anos da queda do muro de Berlim.
Vou confessar: moro na cidade e não fiquei sabendo disso. Talvez porque passei o dia 08 de novembro todinho na frente do computador, preparando os posts que iam sair no dia seguinte aqui no Memórias do Muro.
O concerto foi chamado de “Ode an die Freude” ou em uma tradução livre Ode à felicidade. Sob o mote “fronteiras existiam ontem”, a Telekom convidou as pessoas a irem à estação central para fazer parte de uma ação coletiva, até então mantida em segredo.
Paul Potts, o primeiro vencedor do programa Britain’s Got Talent (o mesmo programa que consagrou Susan Boyle) foi a atração surpresa e cantou junto com um coral improvisado naquele momento, formado por mais de mil pessoas que tinham ido à estação de trens para desvendar o que seria essa tal flash mob misteriosa.
Aí vai a propaganda com a Sinfonia 9 de Beethoven cantada por Paul Potts e o “coral sem fronteiras” e regência do maestro americano James Wood. Não deixa de ser uma bela sacada de marketing da empresa. Entenda porque Leipzig é tão importante na queda do muro de Berlim.
Em tempo: não ganhei nada pra escrever esse post e tampouco sou cliente da Telekom.
Um aspecto da RDA observado sob o ponto de vista atual, me deixa especialmente curiosa: como os alemães orientais lidam com o fato de que o país de sua infância, literalmente, já não existe mais? Muito do que se aprendeu naquela época como sendo “certo”, desapareceu com o tempo.
Abaixo as lembranças de Lars dos Santos Drawert que nasceu em uma pequena cidade próxima a Dresden, capital da Saxônia. Ele é o grande responsável pelo fato de eu poder escrever pra vocês diretamente daqui.
Quando o muro caiu em 1989, eu tinha 13 anos e naturalmente não pude entender muito bem o que acontecia naquele momento.
Eu lembro muito pouco dos acontecimentos concretos daqueles dias. A maior parte do que sei, aprendi nos anos seguintes através de leituras ou de relatos de familiares, amigos e conhecidos. Apesar disso, as emoções fortes e incríveis daqueles meses vivem em mim como grandes animais adormecidos.
Imagens das demonstrações de Segunda-Feira em Leipzig ou da queda do muro em Berlim, surtem exatamente o mesmo efeito poderoso que antes e me tiram o ar de imediato, além de acelerar as batidas do meu coração. Os sentimentos fortes que surgem de repente, quase do nada, só me provam que eu vivi tudo aquilo, só que sob o olhar infantil.
Esses acontecimentos dividem a minha vida em duas partes: o antes e o depois. Não tanto em um sentido lógico ou abstrato, mas sim em um senso diretamente ligado às emoções. O passado – ou seja, a infância – está em uma terra distante que já não existe mais. O que passou está separado de mim, como se uma cortina semi-transparente, pintada com imagens revolucionárias, estivesse entre o passado e o presente. Mas no fim das contas, o passado também faz parte da minha vida.
No entanto, algo dos anos na escola socialista permaneceu na memória. Muitas coisas legais, sobretudo as experiências comunitárias, infelizmente ainda estão ligadas ao que sei hoje: que a pureza e a inocência das crianças foram usadas em prol do ensino socialista.
Uma estrutura fundamental semi-militar que chegava até as salas de aula, o que se traduzia em divisão clara de funções (líder de classe, vice-líder, etc.), formação periódica dos grupos em posição de sentido e com uniformes de pioneiros-mirins, medalhas e elogios para os que fossem obedientes e estudiosos ou repreensão e às vezes até advertências públicas para os que cometessem algum erro. Se contempladas hoje, muitas lembranças de fato bonitas e multifacetadas dos tempos de escola, têm um sabor amargo estranho.
O tempo depois da queda do muro também foi uma experiência marcante. De repente, os cartazes da propaganda socialista desapareceram das paredes destruídas dos edifícios e foram, pouco a pouco, substituídos por publicidade de carros ou máquinas de barbear.
Em matérias como estudos sociais, por exemplo, as perspectivas mudaram dentro de pouco tempo. O que ainda era válido, de pronto passou a ser inválido. O ruim virou bom e vice-versa. De repente passou-se a olhar para a História sob um ponto de vista completamente distinto.
Em parte, os novos enfoques foram transmitidos durante alguns meses pelos mesmos professores, os quais haviam ditado um texto a respeito do triunfo do Socialismo sobre o Capitalismo um pouco antes da mudança de rumos no país – tudo meio estranho para uma pessoa tão jovem. Nessa fase, provavelmente muitas pessoas devem ter vivenciado o que significa relatividade ou também qual a diferença entre realidade e interpretação.
Um pouco mais tarde, bares improvisados foram erguidos em muitos lugares. Bandas, galerias ou revistas pequenas foram criadas. Em todos os lugares se podia notar movimento, florescimento de ideias, alegria de viver e otimismo. A sensação de efetivamente ser alguém e poder mudar alguma coisa foi compartilhada pela maioria, assim como entre nós, jovens estudantes.
Juntos, criamos grupos de interesses comuns, fundamos um jornal escolar crítico e xingamos os carrões da Mercedes. A memória da energia desse tempo logo após a mudança, sobrevive em mim como uma saudade. Algumas desilusões, o entendimento da nova realidade e o difícil processo de integração que vieram depois, foram talvez tão dolorosos, porque os contrastes entre as emoções diversas (prisão, libertação, esperança e algumas decepções) eram muito fortes.
O que ficou em mim foi uma saudade crônica dos primeiros anos depois de 1989, uma saudade dessa energia e da inocência maravilhosa da juventude. Em paralelo a algumas dificuldades no “novo país”, ficou também em mim uma profunda gratidão a todos aqueles que tornaram possível essa mudança radical.
Onde eu estaria hoje se a transição não tivesse ocorrido ou quem eu poderia ter me tornado naquela ditadura socialista, eu realmente nem quero saber.
Eine Sache der DDR-Zeiten macht mich neugierig: wie kann man heutezutag mit der Tatsache umgehen, dass das Land seiner Kindheit nicht mehr existiert? Vieles, was man als “richtig” gelernt hat, ist mit der Zeit verschwunden.
Jetzt die Erinnerungen von Lars dos Santos Drawert, der bei Dresden geboren ist. Er ist auch der grosse Verantwortliche, dass ich euch von hier schreiben kann.
Als 1989 die Mauer fiel war ich gerade mal 13 Jahre alt und verstand natürlich noch nicht so recht, was da gerade passierte.
An die konkreten Ereignisse in diesen Tagen erinnere ich mich kaum. Das Meiste habe ich erst in den Jahren danach von meiner Familie, von Freunden und Bekannten erfahren oder habe es nachgelesen. Trotzdem wohnen die unglaublich starken Emotionen dieser Monate in mir wie große schlafende Tiere. Bilder von den Montagsdemonstrationen in Leipzig oder dem Mauerfall in Berlin wirken nachwievor so stark auf mich, dass mir unmittelbar die Luft wegbleibt und mein Puls in die Höhe schnellt. Die starken Gefühle, die dann so plötzlich wie aus dem Nichts hochkommen, beweisen mir dann, dass ich das alles, wenn auch aus einer kindlichen Perspektive heraus, erlebt habe.
Dieses Ereignis teilt mein Leben in zwei Teile: dem Vorher und dem Nachher. Nicht so sehr im logischen oder abstrakten Sinn, sondern ganz unmittelbar im eigenen Empfinden. Die Vergangenheit, die Kindheit liegt in einem fernen Land, daß nicht mehr existiert. Sie ist wie durch einen halbdurchsichtigen, mit Revolutionsbildern bemalten Vorhang abgetrennt und doch, natürlich, gehört sie zu mir.
Aus den Jahren in der sozialistischen Schule ist dennoch einiges im Gedächtnis geblieben. Viele schöne, vor allem gemeinschaftliche Erfahrungen sind aber leider immer wieder gekoppelt mit dem Wissen, dass die Unschuld und Naivität der Kinder für die sozialistische Erziehung benutzt wurde. Eine halbmilitärische Grundstruktur bis in die Schulklassen hinein hat es ebenso gegeben wie das Verteilen von Funktionen (Gruppenratsvorsitzender, Stellvertreter etc.), regelmässige Appelle in Formation und Pionieruniform, Medaillen und Lob bei fleissigem und gehorsamen Lernen oder Tadel und teilweise sogar öffentliches Bloßstellen bei Fehlverhalten. Von heute aus betrachtet haben daher viele Erinnerungen an die eigentlich schöne und sehr vielseitige Schulzeit einen ziemlich bitteren Beigeschmack.
Die Zeit nach dem Mauerfall war eine ebenso prägende Erfahrung. Plötzlich verschwanden die sozialistischen Werbeplakate von den kaputten Hauswänden und wurden nach und nach durch Produktwerbung von Autos oder Rasierapparaten ersetzt. In Schulfächern wie z.B. Gesellschaftskunde änderten sich innerhalb kürzester Zeit die Vorzeichen. Was eben noch gültig war, wurde plötzlich ungültig. Aus schlecht wurde gut und umgekehrt. Auf die Geschichte schaute man plötzlich aus einer völlig anderen Richtung. Zum Teil wurden sogar die neuen Sichtweisen noch einige Monate von den selben Lehrern vermittelt, die mir kurz zuvor noch einen Text vom Sieg des Sozialismus über den Kapitalismus diktiert hatten – schon merkwürdig für einen jungen Menschen. In dieser Phase haben wahrscheinlich viele erfahren was Relativität bedeutet oder auch was der Unterschied ist zwischen Wirklichkeit und Interpretation.
Etwas später schossen vielerorts improvisierte Bars aus dem Boden. Es gründeten sich Bands, Galerien oder kleine Magazine. Überall war Bewegung, Erblühen, Lebensfreude und Optimismus. Das Gefühl, tatsächlich jemand zu sein und etwas verändern zu können teilten wohl die meisten und auch wir jungendlichen Schüler miteinander. Wir schlossen uns zu Interessengemeinschaften zusammen, gründeten eine kritische Schülerzeitung und schimpften gegen Autos von Mercedes.
Die Erinnerung an diese Energie lebt in mir als Sehnsucht fort. Die späteren Ernüchterungen, Einsichten und schwierigen Lernprozesse waren, jedenfalls teilweise, vielleicht auch deshalb so schmerzhaft, weil die Kontraste zwischen den verschiedenen Emotionen: Unfreiheit, Befreiung, Hoffnung und Dämpfung so stark waren.
Was für mich bleibt ist eine ständige Sehnsucht nach den ersten Jahren nach 1989, eine Sehnsucht nach dieser Energie und der wunderbaren jugendlichen Naivität, aber auch, bei allen Schwierigkeiten im „neuen Land“, eine tiefe Dankbarkeit den Menschen gegenüber, die diesen Umbruch möglich gemacht haben.
Wo ich heute ohne die Wendeereignisse wäre bzw. wer ich in dieser sozialistischen Diktatur überhaupt hätte werden können, möchte ich wirklich nicht wissen.
d) The Invisible Frame, Filme fresquinho da diretora Cynthia Beatt que pode ser visto online no ótimo The Auteurs. O filme é com a atriz Tilda Swinton.
Aqui algumas fotos que tirei ontem na festa de 20 anos da queda do muro de Berlim. Como costumo dizer: Todas as imagens são feitas com uma câmera digital, caseira mesmo. Para mim o que vale é o registro de um momento ou de um lugar. Não busco a estética perfeita. Apenas abro os olhos para o que me circunda.
Dia 09 de novembro de 2009. Às 5 da tarde já estava tão escuro como se fosse noite densa. A chuva não dava trégua desde a manhã. A caminho de Berlim, eu estava ansiosa em fazer parte da festa da liberdade, em alemão Fest der Freiheit que celebraria os 20 anos da queda do muro símbolo da repressão.
Tão envolvida com os relatos, vídeos e fotos de 89 e da História da RDA em geral, não pude deixar de me emocionar com essa comemoração que, agora, penso também ser minha. Sinto que a História da queda do muro de Berlim vai mais além da Alemanha. A mensagem de (re)união e luta das pessoas por liberdade é fato que provoca reflexões em todo o mundo. Infelizmente ainda há muitos muros físicos e ideológicos a serem derrubados. Ontem fiz esse post com um link interessantíssimo falando do assunto.
Cheguei em cima da hora no palco das celebrações, portanto era de se esperar que eu não teria acesso ao Portão de Brandemburgo. Mas na Potsdamer Platz pude juntar-me à multidão que não ligava pra chuva e frio e se aglomerava lá para ver toda a festa sendo transmitida ao vivo em telões. A paisagem ao meu redor era inusitada: havia um verdadeiro muro móvel de guarda-chuvas!
Plácido Domingo cantou e emocionou. Aqui um vídeo de sua apresentação (continue lendo o post depois).
Depois veio Bon Jovi com a sua recém composta “We weren’t born to follow” (tradução livre: nós não nascemos para seguir). Fiquei surpresa ao ver um cantor não germânico ganhar tanto destaque na festa e confesso não ter entedido bem essa escolha. No entanto, pesquisando na internet descobri que o artista tem uma relação com Berlim desde o fim da década de 80 e compôs essa música dedicada à independência e a aqueles que lutaram pela liberdade mesmo em meio às adversidades.
O cantor se apresentou no chão debaixo de uma chuva fina e fria. Rolou um playback, mas tudo bem. Era dia de festa. Vejam o vídeo e sigam lendo o post abaixo.
Comecei a tirar fotos e a observar os arredores. Pessoas encolhidas pelo frio, celulares, câmeras digitais, anúncios publicitários gigantes por todos os lados. Especialmente ontem, essa conjunção de fatores me chamou a atenção. Um novo mundo tinha adentrado o coração de Berlim. Enquanto o muro esteve erguido, a Potsdamer Platz foi dividida e certamente era bem diferente do que eu via ali naquele momento.
Durante as horas que estive lá, tentei me transportar no tempo e imaginar como tinha sido há 20 anos. A alguns metros dali, as pessoas já deviam estar subindo no muro próximo ao portão de Brandemburgo, a euforia coletiva devia estar em cada esquina e as duas partes de Berlim já se reencontravam e se abraçavam abrindo caminho para uma nova era, um novo país.
Uma pena que a festa de ontem foi tão organizada para ser transmitida ao vivo. Parecia mais um programa de TV que uma celebração popular. Mas a atmosfera de alegria e o orgulho da liberdade conquistada com tanto esforço imperavam nessa noite memorável. Acabada a festa, tomei um Glühwein (vinho quente com ervas típico do período frio) já esperando as celebrações de 2010, 2011, 2012…
AQUI um vídeo com uma reportagem sobre a festa. Está em alemão. E abaixo outro vídeo com o coral “Adoro” cantando na festa de ontem uma música bem famosa aqui chamada Freiheit – Liberdade.
Todas as imagens são feitas com uma câmera digital, caseira mesmo. Para mim o que vale é o registro de um momento ou de um lugar. Não busco a estética perfeita. Apenas abro os olhos para o que me circunda.
Texto do escritor e diretor de cinema Raydel Araoz, feito especialmente para o Memórias do Muro.
Ia terminar o ensino médio, depois fazer o pré (vestibular) e em seguida iria estudar na União Soviética. Assim era o meu mundo aos 15 anos. Uma linha reta em direção a um futuro definido pelo sonho de uma família revolucionária, de “classe média cubana”, se é que existe essa denominação.
Nesses dias, caminhando pelos corredores da minha escola, um convento de monjas desapropriado no início da revolução, escutei o rumor entre os professores sobre uma greve.
Era uma notícia incompreensível. O socialismo não tinha greves, nem crise econômica e tampouco desemprego. E os mesmos professores que tinham nos ensinado isso nas aulas de fundamentos do marxismo e História contemporânea, falavam agora dessa greve.
Os rumores cresceram nos corredores, passando de professores para alunos, como uma notícia confusa de forma retangular. Se criavam grupos, discussões, se falava de quem era melhor: os americanos ou os russos. Se falava de traição. Alguém disse: proibiram a revista Sputnik.
Em casa procurei na coleção que o meu pai tinha da Sputnik. Nos seus últimos números deixou de ser a revista do ursinho Misha e do progresso de Moscou, para mostrar outra história da União Soviética, a do ditador Stálin. O dique começava a ceder às nossas costas e em silêncio.
A escola terminou assim como começou: prometendo uma terra prometida, a dos manuais. No entanto, naquele verão o julgamento do General Ochoa por tráfico de drogas comoveu o país inteiro. Até então, acreditávamos que o tema das drogas era algo alheio a Cuba, ainda mais no Exército. O impacto do julgamento encobriu as notícias internacionais desse ano.
Meses depois, o muro de Berlim caiu, mas esse estrondo chegou debilitado a Cuba. A uma Cuba que encarava o bloco socialista como eterno e continuava adiando o capitalismo.
Assim, quando eu realmente fui me dar conta do que siginificava a queda do muro de Berlim, esse fato tinha virado História e o período especial entrava pela porta da minha casa.
Então, na escuridão do apagão, ainda com espíriro romântico, nos perguntávamos: ” o que vai acontecer agora com a Alemanha?” “o que acontecerá com a União Soviética?”.
Texto del escritor y director de cine Raydel Araoz, hecho especialmente para “Memorias del Muro”.
Iba a terminar la secundaría básica, luego hacer el pre y estudiar en la Unión Soviética. Así era mi mundo a los 15 años, una línea recta hacia un futuro definido en el sueño de una familia revolucionaria, de “clase media cubana”, si existe esa denominación.
En esos días caminando por los pasillos de mi escuela, un convento de monjas expropiado a principio de la revolución, escuché el rumor entre los profesores de una huelga en los países socialistas.
Era una noticia incomprensible, el socialismo no tenía huelgas, ni crisis económica, ni desempleo. Y eran los mismos profesores que nos habían enseñado eso, en las clases de fundamentos del marxismo e historia contemporánea, los que hablaban de la huelga.
El rumor creció a nivel de pasillo, pasando de los profesores a los alumnos como una noticia confusa de forma rectangular. Se creaban grupos, discusiones, se hablaba de quienes eran mejor si los americanos o los rusos, se hablaba de traición. Alguien dijo: prohibieron la revista Sputnik.
En la casa revisé la colección que mi padre tenía de Sputnik. En sus últimos números dejó de ser la revista del osito Misha y del progreso de Moscú, para mostrar otra historia de la Unión Soviética, la del dictador Stalin. El dique comenzaba a ceder a nuestras espaldas y en silencio.
La escuela terminó como empezó, predicando una tierra prometida, la de los manuales. Sin embargo ese verano el juicio al General Ochoa por tráfico de drogas conmocionó a todo el país. Hasta entonces creíamos que (el tema de) las drogas era algo ajeno a Cuba, y más aún al ejército. El impacto del juicio nubló las noticias internacionales de en ese año.
Meses después cayó el muro (de Berlin) pero su estruendo llegó debilitado a Cuba. A una Cuba que suponía que suponía que el campo socialista era eterno y se extendía desplazando al capitalismo.
Así que cuando supe a ciencia cierta que significaba la caída del muro de Berlín, ya el hecho era historia y el periodo especial entraba por la puerta de mi casa.
Entonces en la oscuridad del apagón, aun con espíritu romántico, nos preguntábamos: “¿qué pasará ahora con Alemania?,” “¿qué pasará ahora con la Unión Soviética?”.
Queridos seguidores, entre uma coisa e outra, ainda estou traduzindo aquela entrevista que prometi. Mas ela sai em dezembro. Ah, se sai. :-) 20 hours ago